Ou simplesmente “usar e respeitar o alerta não mata ninguém”.
Há algum tempo, esbarrei em um texto e uma discussão no Twitter (graças à Sybylla, que mantém o ♥ Momentum Saga ♥) sobre… spoilers. E era uma discussão que tinha no meio alguns argumentos muito bons, finalmente!, do lado de pessoas que são bem críticas a quem reclama dos spoilers. Mas eu ainda não consigo concordar, e vou tentar explicar por quê.
Um disclaimer: escrevi a maior parte disso no dia que vi a discussão, mas não tive coragem de postar, talvez por saber o quanto eu acabo me exaltando com esse assunto e com os argumentos mesquinhos que as pessoas geralmente usam. Agora já faz tanto tempo que não sai nenhum post aqui que pensei “por que não?” e soltei o kraken.
O texto, mesmo, praticamente começa com a seguinte definição para spoiler:
“[A] crença de que revelar partes importantes de uma trama — quer seja televisiva, literária ou cinematográfica — consiste em uma espécie de crime contra o prazer de quem ainda não terminou aquela história.
Quem dera fosse apenas o de quem ainda não terminou uma história que está se desenrolando aqui e agora. É preciso preservar também o prazer de quem sequer começou, de quem não sabe se um dia vai começar, de quem não tem planos concretos, de quem declaradamente não vai.”
Eu gostaria de viver no mundo em que essas pessoas vivem. Deve ser mais legal que o meu, onde o egoísmo de “AAAAAAAA MINHA LIBERDADE DE EXPRESSÃO SAIA DA INTERNET PRA NÃO LER SPOILER SEU FRESCO” predomina e não a noção de preservar o prazer do outro. Mas vamos lá.
Existem, basicamente, três tipos de pessoas:
• as que não gostam de saber o que acontece;
• as que não se importam se recebem spoilers;
• as que procuram saber o que acontece.
Dependendo do contexto, da obra em questão e do meu interesse nela, acabo sendo uma mistura dos três. Mas isso não importa. Vamos tentar nos colocar no lugar de cada um desses tipos de pessoas em uma situação semelhante.
Quem procura saber vai até gostar, pensando individualmente, se você fizer comentários longos contando todos os acontecimentos do último episódio de Game of Thrones enquanto assiste ao vivo, como um grande jogo de futebol. Quem não se importa vai continuar sem se importar. Mas você certamente também conhece alguém que não gosta e que não pode assistir ao episódio ao mesmo tempo que você. Isso significa que você não deva comentar? Ou isso significa apenas que você deve ter um pouco de cuidado com o que comenta e de que forma faz isso?
Como a Sybylla defendeu no Twitter e o texto também menciona, a jornada até o que acontece é mais importante do que o acontecimento de fato. Ou, pelo menos, deveria ser em uma boa obra. Vemos e amamos adaptações cinematográficas de livros que já lemos, o tempo todo. Alguns de nós gostam de reler, rever, jogar novamente. E existem spoilers tão enraizados na cultura pop que é difícil ou impossível escapar deles, tipo dos Star Wars clássicos. Eu concordo. PORÉM… isso me dá o direito de contar algo que acontece (ou pior, como acontece) para alguém que não pense da mesma forma sem aviso nenhum? Não. NÃO DÁ.
Pra usar o mesmo exemplo: apesar de ter visto e amado os Star Wars hoje em dia, eu adoraria ter a oportunidade de ver sem saber de nada. Claro, ao revisitar uma história cujo enredo te surpreendeu da primeira vez, a forma com que você a encara é diferente, e as boas não “perdem a graça” com a revelação. É por isso que ainda é legal rever Clube da Luta, mas o Clube da Luta que se revê não é o mesmo que se vê (essa frase tá fazendo sentido?). Ser surpreendido não deve ser o maior objetivo ao se consumir uma obra [o texto tem um momento bem legal em que compara o bom/verossímil ao meramente surpreendente, apesar de vir de uma argumentação com a qual não concordo], mas qual é o mal em querer preservar possíveis surpresas?
Sim, as discussões podem ser mais profundas quando podemos incluir detalhes de acontecimentos da história. É o que eu mais gosto nelas. Mas que graça tem dividir isso com quem não sabe o que acontece? Que graça tem eu começar a falar profundamente sobre Bioshock com alguém que não jogou e começar a discutir o plot twist sem que a pessoa queira saber daquilo por mim? Não existe uma forma de eu contar apenas o suficiente? E aí a pessoa, depois de ter experienciado aquilo com a sua própria ótica, acrescenta mais ao debate.
Isso me leva ao seguinte momento do texto…
A única graça que esses produtos comerciais que consumimos pode ter, a única coisa que esses produtos que no melhor dos casos são diluições infinitesimais de algo que um dia foi bom podem trazer, que é a discussão coletiva, recebe a amarra do spoiler como um pacto de não agressão entre consumidores passados e futuros. Qualquer discussão, análise, ponderação passa a ser calada em um “por favor, vejam”.
PERA LÁ! Existe um ABISMO entre “respeitar quem não viu” e “calar análises”! E aqui eu direciono aos defensores dos spoilers, a mim mesma, e também a vocês, fellow defensores do direito de não receber spoiler: gente, tenhamos limites. Querer preservar a nossa experiência e a de possíveis outros não tem NADA a ver com impedir que outras pessoas construam discussões, tem a ver apenas com poder ter a escolha, poder decidir se queremos saber aquilo antes ou não. Essa é a parte que muita gente simplesmente não consegue entender. E aí começam a: mandar os outros “se retirarem da internet” como proteção; bloquear quem solta spoilers; discutir o mero enredo de uma história que não se vivenciou; ou qualquer coisa idiota do tipo.
Vou contar uma novidade novíssima pra você: ninguém, NINGUÉM, é obrigado a consumir qualquer forma de entretenimento no seu lançamento. Livros, filmes, séries, jogos, animes, mangás, quadrinhos e afins não têm prazo de validade. A partir do momento em que você solta um post em uma rede social, um blog, um site, ou qualquer coisa a partir disso, as mais variadas pessoas vão ter acesso a ele. Concordo que “clica quem quer”, mas as pessoas interessadas em ler aquele determinado texto não são pessoas que necessariamente leram, viram ou jogaram exatamente as mesmas coisas que você. Não são pessoas que necessariamente pensam ou se sentem exatamente da mesma forma que você. E podem, sim, ser pessoas que vão se incomodar em esbarrar em uma revelação do enredo –mesmo que, depois de ver a obra no contexto, o spoiler possa não fazer diferença, naquela hora fez. A própria palavra significa “estragar”. Por favor.
Mesmo pra quem não se importa com spoilers, e às vezes até pra quem gosta, existe uma divisão entre o que é aceitável e o que se deve evitar. Existem aquelas histórias em que a jornada importa muito mais –mas que são muito mais legais se, na primeira vez, algumas surpresas e plot twists são preservadas. Bioshock, que eu falei antes, está entre elas. Mas isso tira o valor de alguma dessas histórias? De forma alguma.
Eu tomo cuidado ao discutir até Gilmore Girls (que já acabou há dez anos) além do básico, mas nunca deixo de fazê-lo. Seja conversando diretamente com outras pessoas que já viram ou não se importam em saber, seja postando algum texto com um pequeno aviso pra quem ainda não viu. “alerta de spoiler” tem quinze letras, o seu teclado não vai cair se você digitar isso quando achar que está comentando alguma revelação que pode estragar a experiência do outro. A partir daí, cabe às outras pessoas a decisão de continuar lendo ou não. Pessoas que gostam e procuram spoilers provavelmente vão continuar e aproveitar a sua discussão como quiserem. Além disso, ninguém que passar daquele ponto por vontade própria vai estar em posição de reclamar com você se ler algo que não quiser.
Porque você avisou.