Nightwish – Imaginaerum


Até demorei pra escrever sobre esse álbum, que é um dos meus favoritos de todos os tempos. Pode ser porque é um pouco difícil de absorver completamente (o que ainda não sei se consegui), pode ser porque eu precisava de uma época de vício pra ter motivação suficiente. Acabou sendo bom ter demorado, porque já vi e ouvi muito mais e ainda tenho oportunidade de falar da Floor e criar hype pra turnê do álbum novo, Endless Forms Most Beautiful, que vai passar pelo Brasil em setembro. Vamos lá?

O meu Imaginaerum, que tive que comprar da Argentina (!) porque a situação dos CDs da banda no Brasil é meio tensa.
O meu Imaginaerum, que tive que comprar da Argentina (!) porque a situação dos CDs da banda no Brasil é meio tensa.

O Imaginaerum é um álbum conceitual de 13 faixas escritas pelo Tuomas Holopainen, tecladista e mastermind do Nightwish. Tuomas também compôs quase todas as melodias do álbum: 11 das 13 faixas sozinho e uma em colaboração com o maestro Pip Williams, enquanto a outra foi inteiramente composta pelo Marco Hietala, baixista e vocalista. Além do álbum, também foi produzido um filme baseado no conceito, dirigido por Stobe Harju, que dirigiu o clipe de The Islander, do álbum anterior. O filme, também chamado Imaginaerum, saiu em 2012.

(imagem do DeviantArt da icequeen1186)
(imagem do DeviantArt da icequeen1186)

A história, por cima, é sobre um compositor, já idoso e no seu leito de morte, fazendo uma viagem interior pela sua vida. Daí o que acontece é que tem aquele clima de infância, contos de fadas, folclore, parque de diversões, circo e um quê retrô (remetendo à época em que se passou a infância do personagem). São temas que me agradam, vide Supernatural, Fables, Once Upon a Time e Wonders of the Younger. Algumas das influências são Tim Burton, Neil Gaiman, Salvador Dalí e Danny Elfman, mas não posso falar com propriedade de nenhum, então você que vai ter que descobrir o que influenciou o que e me contar nos comentários depois (ou não).

Antes de eu começar, é melhor ouvir um pouquinho do próprio Tuomas Holopainen.

Taikatalvi é a introdução do álbum e do tema, cantada inteiramente em finlandês pelo Marco. Começa dando corda em uma caixinha de música e “taikatalvi” significa “inverno mágico” – nome que faz muito mais sentido depois de ver o filme, que praticamente começa seguindo um floco de neve. Além de introdução para o álbum e o tema, a transição para a música seguinte é tão boa que funciona como introdução a ela também. A música em questão é o primeiro single, Storytime. Um belo single, aliás, porque tanto ela quanto seu clipe – feito nos bastidores das cenas da banda no filme – representam praticamente tudo que veremos, entre temas e sons, ao longo do Imaginaerum. Além de ser grandiosa e bem grudenta. Por isso tudo, mesmo tendo sido meu primeiro contato com esse álbum, é uma das minhas preferidas dele até hoje. No filme, é aqui que começa de verdade a viagem do protagonista Thomas Whitman (sim, Thomas), que recebe a visita de um boneco de neve chamado Mr. White. [Não, não é esse Mr. White que você tá pensando. Duh.]

Uma que demorou pra chamar minha atenção foi Ghost River. Talvez não seja o tipo de música que a gente aprecia completamente de primeira, mas o que interessa é que hoje ela também está entre as minhas preferidas. Ela é bem teatral e a estrutura é como se fosse um duelo interpretado por Marco e Anette – Tuomas diz que é um duelo entre o diabo e a “Mother Gaia”, uma espécie de Mãe Natureza da mitologia eslava. Algumas das melodias mais legais do álbum estão aqui, especialmente vocais, e a sintonia das vozes é maravilhosa. A versão ao vivo com a Floor pode ser ainda melhor, apesar de eu ter um fraco pela voz da Anette na versão de estúdio. Mas não se engane pelos meus comentários anteriores: é uma das mais pesadas do álbum. E é um dos motivos de você cair no chão com a Slow, Love, Slow logo em seguida. Porque aqui temos uma música inspirada no jazz que você ouviria se saísse à noite nos EUA lá por 1930. A Anette tá simplesmente sensacional aqui – mais ainda que no resto do álbum -, assim como as notas que se repetem no piano, levemente ‘haunting’. Eu vejo noite de inverno, 1930 e rua escura toda vez que escuto. Essa é a primeira música que tem uma cena específica no filme. O protagonista se vê justamente em um tipo de clube ou casa noturna com sua antiga banda.

I Want My Tears Back foi a que mais me chamou atenção nas primeiras vezes em que ouvi o álbum. É muito MUITO catchy, meio folk, mas pesada, tem referências diversas a Alice no País das Maravilhas e um solo de guitarra com gaita de fole. Sim. Mil vezes sim. Dá até vontade de dançar (como a Floor fica fazendo aqui). Foi dito que é uma das mais acessíveis do álbum, com cara de single, e não dá pra discordar, sabe? Apesar de não ter sido single no fim das contas. Pelo menos ela ainda faz parte do setlist dos shows e uma versão instrumental dela toca no filme.

Agora preciso falar que o começo de Scaretale realmente me assusta às vezes. É uma música ainda mais teatral que Ghost River e, assim como Slow, Love, Slow, tem uma cena do filme dedicada a ela, uma que daria um clipe perfeito. O clima circense é representado pelo fato de os personagens estarem em um circo, e todo o fator macabro fica representado pelo que o personagem principal vê da sua memória naqueles momentos. Como se fosse a representação de seus pesadelos. Os bastidores que nós vemos no clipe de Storytime são justamente dessa cena de Scaretale. Ela e a seguinte, Arabesque, sempre se juntam na minha cabeça. Esta última é um interlude instrumental feito especialmente para uma parte do filme. Nele, a “arabesque” é um globo de neve que o protagonista encontra e que tem uma dançarina fazendo um arabesco. Se falar muito mais passa a ser spoiler, mas ela tem um papel bem relevante na história.

(não consegui encontrar os créditos da imagem, mas ela precisava entrar no post mesmo assim)
(não consegui encontrar os créditos da imagem, mas ela precisava entrar no post mesmo assim)

A linda Turn Loose the Mermaids é o momento em que descobrimos o destino do nosso protagonista. É a balada mais balada do álbum, parece ter inspiração celta e traz várias referências de outras músicas do álbum pra construir sua imagem: de conseguir o que procurava e chegar ao fim da jornada. Depois de “It’s a long road down the river deep and wide” em Ghost River, temos “At the end of the river, the sundown beams/All the relics of a life long lived”; depois de “I wish to see the lost in me/I want my tears back” em I Want My Tears Back, aqui temos “The mermaids you turned loose brought back your tears”. No filme, o instrumental dela toca em uma, digamos, ~boa reviravolta~ que reforça esse sentido.

Eu amo o refrão de Rest Calm. Na verdade eu gosto muito de toda essa música, mas ela geralmente acaba chamando menos atenção porque está entre algumas masterpieces e favoritas pessoais. A guitarra dela é bem legal e, tematicamente, continua o clima de olhar pra trás e se despedir da Turn Loose the Mermaids. Já The Crow, The Owl and the Dove, segundo single, retoma a busca pela inocência. A letra relata “encontros” com um corvo, uma coruja e uma pomba, nos quais o protagonista percebe que nada do que eles oferecem (o primeiro, orgulho; a segunda, sabedoria e sensatez; a terceira coragem e calma) é o que ele busca. É uma balada muito bonita e catchy e foi a única música do álbum com composição do Marco.

“Fanáticos por montanhas-russas, essa é pra vocês. A inspiração é estar em uma montanha-russa, talvez na Disney.” é o que Tuomas diz sobre Last Ride of the Day. Depois de ouvir esse comentário, a associação não poderia fazer mais sentido. Posso não ser nenhuma fanática, mas a música é tão empolgante que não me importaria de levar como trilha sonora nas próximas montanhas-russas. Em seguida temos Song of Myself, obra de mais de 13 minutos (!) dividida internamente em quatro partes. A música em si está na segunda e na terceira, sendo a primeira uma introdução instrumental e a quarta (Love) uma narração, uma “releitura” da Song of Myself de Walt Whitman. São sete minutos de leitura de poesia. É pesado. Se estivesse em qualquer lugar do álbum a não ser exatamente onde está, eu não iria gostar. Mas depois da leitura só temos o encerramento, Imaginaerum, uma espécie de medley orquestral das melodias mais marcantes do álbum, conduzida pelo maestro Pip Williams, e as duas se encaixam muito bem.

Vamos tocar naquele ponto sobre as vocalistas, já que estamos aqui?

Conheci o Nightwish na fase da Tarja. Minhas músicas preferidas da banda são da fase da Anette. Mas andei ouvindo e vendo um montão de lives e cheguei à conclusão de que a Floor é a vocalista definitiva do Nightwish. Você pode/deve ter chegado a essa mesma conclusão. [Se o Tuomas mandar essa mulher embora também, vai ser o maior erro da vida dele.]
E por que eu acho isso? Não vou sentir falta da combinação maravilhosa que era a voz da Anette com a do Marco?
É claro que vou. Mas vamos analisar a história da banda aqui. A questão é que as vozes da Tarja e da Anette são completamente opostas. Ambas bonitas, mas completamente opostas. A Anette dava o máximo de si ao vivo, mas sua interpretação nas músicas da época da Tarja ficava meio ‘meh’. [Na real, por mais que eu goste da voz dela, uma das poucas vezes que um live dela me impressionou foi neste vídeo de Slow, Love, Slow em Montréal, mas isso é outra história.]
Podemos dizer que a Tarja tem vantagem nesse ponto, porque nunca precisou passar pelo mesmo. E eu tenho certeza de que, se a situação fosse inversa, ela passaria pelo mesmo. Você consegue imaginar uma versão de Amaranth ou Storytime cantada por ela? Exatamente. Foram compostas pra outras vozes, outras técnicas de canto e isso não tem problema nenhum, está certíssimo e a vida segue.
Já a Floor consegue se destacar de um jeito próprio que funciona como um meio-termo das duas. Sem contar a presença de palco. QUE PRESENÇA DE PALCO! Se ainda não se convenceu, favor dar uma ouvida em Shudder Before the Beautiful, abertura sensacional do novo álbum.
Pra encerrar: a primeira vocalista e a atual cantando Over The Hills And Far Away juntas em um show na Bélgica enquanto a gente fica debatendo essas coisas.

Ok, agora podemos parar de falar especificamente sobre a questão das vocalistas.

Não querendo pegar o conceito emprestado de Last Ride of the Day, mas já pegando: o Imaginaerum é ~uma montanha-russa~. Mesmo com algumas baladas, mesmo Song of Myself sendo gigantesca, mesmo com qualquer defeito que você tenha encontrado, ele permanece de alto nível do começo ao fim. Conta uma história, passa o que se propõe a passar, é empolgante, tem peso, lida bem com a falta de peso também (algumas bandas de metal ou de rock, quando querem fazer baladas, fazem sempre a mesma – isso não acontece aqui), tem letras muito legais, o trabalho gráfico do álbum físico é impecável e, sinceramente, eu amo esse álbum. Mais um 13 de 10 sem dúvida nenhuma. I rest my case.

imaginaerum-booklet

Singles

Storytime

The Crow, The Owl And The Dove

Mais links legais:

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